
O acesso ao crédito se tornou um dos principais obstáculos para o crescimento das pequenas empresas brasileiras, em um momento em que a inadimplência empresarial atingiu nível recorde e o custo do dinheiro permanece elevado. Em junho de 2026, 9,1 milhões de empresas estavam inadimplentes no país, o maior número da série histórica da Serasa Experian, com R$ 232,9 bilhões em dívidas negativadas.
O cenário é especialmente duro para os pequenos negócios: 8,7 milhões dos CNPJs inadimplentes eram de micro e pequenas empresas, o equivalente a 95% do total. Em 12 meses, a inadimplência nesse segmento cresceu 17,7%, acima da alta de 17,2% registrada entre todas as empresas. “O maior desafio de empreender no Brasil ainda é o acesso ao crédito”, afirmou Walter Pimenta, vice-presidente executivo de pagamentos B2B e novos fluxos para a América Latina da Mastercard, durante o Febraban Tech, em São Paulo.
A combinação de inadimplência elevada, juros altos e demanda crescente por financiamento cria um círculo difícil para os empreendedores. Quanto maior o risco percebido pelos bancos, maiores tendem a ser as exigências para concessão de crédito, os juros cobrados e a necessidade de garantias – justamente fatores que dificultam o acesso das empresas menores ao sistema financeiro.
Dados do Banco Central ajudam a dimensionar o problema. Em maio, a taxa média de juros do crédito livre para empresas chegou a 25,2% ao ano, alta de 1 ponto percentual em 12 meses. No mesmo período, a inadimplência das empresas nessa modalidade alcançou 4,1% da carteira, avanço de 0,6 ponto percentual em um ano.
Ao mesmo tempo, a necessidade de financiamento não diminuiu. Nos 12 meses encerrados em junho, a demanda empresarial por crédito cresceu 9,2%, segundo a Serasa Experian. A pressão ocorre em um ambiente no qual a Selic, embora tenha iniciado um ciclo de queda, ainda está em 14% ao ano.
Para Pimenta, a questão é estrutural. As pequenas e médias empresas representam 95% das empresas brasileiras, respondem por 80% dos empregos formais e geram cerca de 30% do PIB. “Nós sabemos que o acesso ao crédito é absolutamente crucial para que as empresas possam crescer, e ainda é uma área bastante desafiadora em muitos mercados, incluindo o nosso Brasil”, disse.
Quando o crédito vira capital de giro
A dificuldade de obter financiamento bancário tem levado empresas a buscar alternativas dentro da própria operação. Uma delas é o cartão corporativo. Segundo Pimenta, o aumento do uso de cartões por pequenas e médias empresas também está relacionado à necessidade de financiar o caixa. “Nessas companhias, os 30 dias de liquidação da fatura passam a ser vistos essencialmente como acesso a capital de giro”, explicou.
Na prática, o prazo entre a compra e o pagamento da fatura pode aliviar uma necessidade temporária de caixa. Mas o mecanismo tem limitações: não substitui uma linha estruturada de financiamento e pode se tornar caro quando há atraso ou quando a empresa precisa de recursos para investimentos maiores.
O problema ganha relevância diante do ritmo de abertura de novos negócios. O Brasil abriu 5,1 milhões de empresas em 2025, recorde e alta de 18,6% em relação ao ano anterior. Mais de 4,9 milhões eram pequenos negócios, entre microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.
Ou seja, a base de empresas que precisa de crédito para crescer continua aumentando justamente quando o sistema financeiro se torna mais seletivo.
O problema começa antes do pedido ao banco
A dificuldade de financiamento, porém, não está apenas nas condições oferecidas pelas instituições financeiras. Parte dos pequenos empresários ainda mistura as finanças pessoais com as da empresa, o que dificulta a avaliação do risco e da capacidade de pagamento do negócio.
Uma pesquisa do Sebrae mostra que 61% dos donos de pequenos negócios que buscaram financiamento recorreram a empréstimos pessoais para colocar dinheiro na empresa.
A prática pode resolver uma emergência de caixa, mas cria um problema adicional: quando receitas, despesas e dívidas da empresa passam pela pessoa física do proprietário, fica mais difícil identificar a rentabilidade real do negócio e construir um histórico financeiro consistente.
Para o banco, a consequência também é relevante. Quanto menos informações disponíveis sobre o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento da empresa, maior tende a ser a dificuldade para estabelecer um limite adequado. Em alguns casos, isso pode resultar em crédito negado, limite menor ou juros mais elevados.
A ausência de garantias agrava o problema. Microempreendedores individuais e empresas recém-criadas, por exemplo, normalmente têm menos ativos para oferecer em operações de crédito e pouco histórico financeiro para demonstrar seu comportamento como tomadores.
Da pessoa física para a pessoa jurídica
Segundo Marcelo Tangioni, CEO da Mastercard Brasil, a separação entre as finanças pessoais e empresariais continua sendo um dos desafios da gestão dos pequenos negócios. “Tradicionalmente, a indústria tentou resolver o problema da pessoa jurídica com soluções herdadas da pessoa física”, afirmou.
O efeito é uma espécie de paradoxo: o empresário utiliza produtos financeiros pessoais porque são mais acessíveis, mas, ao fazer isso, reduz a quantidade de dados disponíveis para que as instituições conheçam o negócio e ofereçam soluções específicas para suas necessidades.
Há, portanto, um problema de mão dupla. O empreendedor precisa de crédito para crescer, mas muitas vezes não possui a estrutura financeira necessária para demonstrar ao banco que pode recebê-lo. Ao mesmo tempo, a instituição financeira tem dificuldade para enxergar o risco real daquela empresa e, diante da incerteza, tende a cobrar mais ou emprestar menos.
“ A partir do momento em que você começa a trazer soluções que resolvam problemas do seu negócio, e não simplesmente facilitem o pagamento propriamente dito, a adoção começa a ser diferente”, afirmou Tangioni.
Nesse contexto, a digitalização dos pagamentos pode representar mais do que conveniência. Para as pequenas empresas, ela também pode criar uma trilha de dados financeiros capaz de melhorar a visibilidade sobre receitas, despesas e fluxo de caixa – elementos que podem ser decisivos para transformar uma empresa que hoje depende de crédito pessoal em uma companhia capaz de acessar financiamento diretamente como pessoa jurídica..
https://forbes.com.br/forbes-money/2026/08/credito-pequenas-empresas-brasil/
O cenário é especialmente duro para os pequenos negócios: 8,7 milhões dos CNPJs inadimplentes eram de micro e pequenas empresas, o equivalente a 95% do total. Em 12 meses, a inadimplência nesse segmento cresceu 17,7%, acima da alta de 17,2% registrada entre todas as empresas. “O maior desafio de empreender no Brasil ainda é o acesso ao crédito”, afirmou Walter Pimenta, vice-presidente executivo de pagamentos B2B e novos fluxos para a América Latina da Mastercard, durante o Febraban Tech, em São Paulo.
A combinação de inadimplência elevada, juros altos e demanda crescente por financiamento cria um círculo difícil para os empreendedores. Quanto maior o risco percebido pelos bancos, maiores tendem a ser as exigências para concessão de crédito, os juros cobrados e a necessidade de garantias – justamente fatores que dificultam o acesso das empresas menores ao sistema financeiro.
Dados do Banco Central ajudam a dimensionar o problema. Em maio, a taxa média de juros do crédito livre para empresas chegou a 25,2% ao ano, alta de 1 ponto percentual em 12 meses. No mesmo período, a inadimplência das empresas nessa modalidade alcançou 4,1% da carteira, avanço de 0,6 ponto percentual em um ano.
Ao mesmo tempo, a necessidade de financiamento não diminuiu. Nos 12 meses encerrados em junho, a demanda empresarial por crédito cresceu 9,2%, segundo a Serasa Experian. A pressão ocorre em um ambiente no qual a Selic, embora tenha iniciado um ciclo de queda, ainda está em 14% ao ano.
Para Pimenta, a questão é estrutural. As pequenas e médias empresas representam 95% das empresas brasileiras, respondem por 80% dos empregos formais e geram cerca de 30% do PIB. “Nós sabemos que o acesso ao crédito é absolutamente crucial para que as empresas possam crescer, e ainda é uma área bastante desafiadora em muitos mercados, incluindo o nosso Brasil”, disse.
Quando o crédito vira capital de giro
A dificuldade de obter financiamento bancário tem levado empresas a buscar alternativas dentro da própria operação. Uma delas é o cartão corporativo. Segundo Pimenta, o aumento do uso de cartões por pequenas e médias empresas também está relacionado à necessidade de financiar o caixa. “Nessas companhias, os 30 dias de liquidação da fatura passam a ser vistos essencialmente como acesso a capital de giro”, explicou.
Na prática, o prazo entre a compra e o pagamento da fatura pode aliviar uma necessidade temporária de caixa. Mas o mecanismo tem limitações: não substitui uma linha estruturada de financiamento e pode se tornar caro quando há atraso ou quando a empresa precisa de recursos para investimentos maiores.
O problema ganha relevância diante do ritmo de abertura de novos negócios. O Brasil abriu 5,1 milhões de empresas em 2025, recorde e alta de 18,6% em relação ao ano anterior. Mais de 4,9 milhões eram pequenos negócios, entre microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.
Ou seja, a base de empresas que precisa de crédito para crescer continua aumentando justamente quando o sistema financeiro se torna mais seletivo.
O problema começa antes do pedido ao banco
A dificuldade de financiamento, porém, não está apenas nas condições oferecidas pelas instituições financeiras. Parte dos pequenos empresários ainda mistura as finanças pessoais com as da empresa, o que dificulta a avaliação do risco e da capacidade de pagamento do negócio.
Uma pesquisa do Sebrae mostra que 61% dos donos de pequenos negócios que buscaram financiamento recorreram a empréstimos pessoais para colocar dinheiro na empresa.
A prática pode resolver uma emergência de caixa, mas cria um problema adicional: quando receitas, despesas e dívidas da empresa passam pela pessoa física do proprietário, fica mais difícil identificar a rentabilidade real do negócio e construir um histórico financeiro consistente.
Para o banco, a consequência também é relevante. Quanto menos informações disponíveis sobre o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento da empresa, maior tende a ser a dificuldade para estabelecer um limite adequado. Em alguns casos, isso pode resultar em crédito negado, limite menor ou juros mais elevados.
A ausência de garantias agrava o problema. Microempreendedores individuais e empresas recém-criadas, por exemplo, normalmente têm menos ativos para oferecer em operações de crédito e pouco histórico financeiro para demonstrar seu comportamento como tomadores.
Da pessoa física para a pessoa jurídica
Segundo Marcelo Tangioni, CEO da Mastercard Brasil, a separação entre as finanças pessoais e empresariais continua sendo um dos desafios da gestão dos pequenos negócios. “Tradicionalmente, a indústria tentou resolver o problema da pessoa jurídica com soluções herdadas da pessoa física”, afirmou.
O efeito é uma espécie de paradoxo: o empresário utiliza produtos financeiros pessoais porque são mais acessíveis, mas, ao fazer isso, reduz a quantidade de dados disponíveis para que as instituições conheçam o negócio e ofereçam soluções específicas para suas necessidades.
Há, portanto, um problema de mão dupla. O empreendedor precisa de crédito para crescer, mas muitas vezes não possui a estrutura financeira necessária para demonstrar ao banco que pode recebê-lo. Ao mesmo tempo, a instituição financeira tem dificuldade para enxergar o risco real daquela empresa e, diante da incerteza, tende a cobrar mais ou emprestar menos.
“ A partir do momento em que você começa a trazer soluções que resolvam problemas do seu negócio, e não simplesmente facilitem o pagamento propriamente dito, a adoção começa a ser diferente”, afirmou Tangioni.
Nesse contexto, a digitalização dos pagamentos pode representar mais do que conveniência. Para as pequenas empresas, ela também pode criar uma trilha de dados financeiros capaz de melhorar a visibilidade sobre receitas, despesas e fluxo de caixa – elementos que podem ser decisivos para transformar uma empresa que hoje depende de crédito pessoal em uma companhia capaz de acessar financiamento diretamente como pessoa jurídica..
https://forbes.com.br/forbes-money/2026/08/credito-pequenas-empresas-brasil/




