Economia

Juros altos, dívidas e inflação ameaçam caixa das empresas brasileiras até 2027, diz Moody’s

As empresas brasileiras devem continuar sob pressão até 2027 por causa dos juros elevados, do custo maior para tomar empréstimos e de um ritmo mais lento de crescimento da economia, segundo relatório divulgado nesta terça-feira, 29, pela Moody’s. 

A agência de classificação de risco, que acompanha a capacidade de empresas e governos de pagar suas dívidas, prevê que a geração de resultado das companhias brasileiras cairá mais de 3% em 2027. 

Na prática, o cenário significa menos dinheiro disponível para as empresas pagarem dívidas, fazer investimentos e distribuir aos acionistas.

O principal problema é o custo do crédito. Com os juros elevados, as empresas gastam mais para financiar suas operações e precisam desembolsar mais dinheiro quando chega a hora de renovar empréstimos ou trocar uma dívida antiga por uma nova. 

A situação é mais delicada para companhias que têm vencimentos importantes nos próximos anos. Segundo a Moody’s, empresas com dívidas a vencer até 2028 provavelmente terão de recorrer a novos empréstimos, emissões de títulos no mercado brasileiro ou outras fontes de dinheiro para conseguir refinanciar seus compromissos. 

Juros pesam no caixa das empresas

O efeito dos juros aparece diretamente no caixa. Uma empresa que precisa pagar mais pela dívida tem menos recursos disponíveis depois de quitar suas despesas financeiras. 

Isso pode levar as companhias a adiar investimentos, reduzir gastos ou buscar novas formas de financiamento. Para as empresas mais endividadas, o risco é maior porque uma parcela maior da receita precisa ser destinada ao pagamento de juros. 

A Moody’s afirma que as empresas terão espaço limitado para reduzir o endividamento rapidamente ou conseguir novos aportes de capital.

O cenário também é afetado pelo crescimento mais lento da economia. Com menor expansão do Produto Interno Bruto (PIB) e renda das famílias mais pressionada, as empresas encontram mais dificuldade para aumentar vendas e compensar o aumento das despesas. 

Combustíveis e transporte também pressionam

O aumento dos custos de transporte e logística é outro fator de preocupação, principalmente para empresas que dependem de combustíveis e matérias-primas. 

A alta do petróleo afeta diretamente setores como aviação, transporte e indústria química. Essas empresas podem repassar parte do aumento de custos aos consumidores, mas a transferência não necessariamente compensa toda a pressão sobre as margens de lucro. 

Na Petrobras, a Moody’s aponta um risco adicional relacionado à política de preços dos combustíveis. Segundo a agência, a alta do petróleo aumenta a exposição da estatal a decisões do governo.

Ao mesmo tempo, aumentos mais limitados dos preços dos combustíveis reduzem parte do ganho que a empresa poderia obter com o petróleo mais caro.

As siderúrgicas brasileiras também devem enfrentar pressão até 2027, principalmente devido à maior concorrência de produtos importados, com destaque para o aço produzido na China.

El Niño pode afetar energia e alimentos

O clima também aparece entre os riscos para as empresas brasileiras. A Moody’s avalia que um El Niño forte pode reduzir a quantidade de água disponível nos reservatórios das hidrelétricas e aumentar os custos de geração de energia. 

Para o consumidor, isso pode significar maior pressão sobre as contas de luz caso seja necessário recorrer mais a usinas termelétricas, que têm custo de geração mais elevado.

O agronegócio também pode ser afetado. Dependendo da região e da intensidade do fenômeno climático, culturas como soja, milho, trigo, café e cana-de-açúcar podem registrar perdas.

Uma produção menor de grãos também pode elevar os custos de empresas produtoras de carne, já que milho e soja são usados na alimentação de aves, suínos e outros animais.

Empresas terão de administrar caixa e dívidas

A avaliação da Moody’s combina, portanto, diferentes fontes de pressão sobre as empresas: crédito mais caro, crescimento econômico mais lento, combustíveis e matérias-primas mais caros e riscos climáticos. 

O impacto, porém, não será igual para todas as companhias. Empresas com pouca dívida e maior capacidade de gerar caixa tendem a ter uma exposição diferente das que dependem de empréstimos para financiar investimentos ou manter as operações. 

Para as empresas mais endividadas, o desafio nos próximos anos será conseguir renovar suas dívidas sem aumentar excessivamente o custo financeiro, ao mesmo tempo em que mantêm investimentos e operações. 

A Moody’s prevê que esse ambiente continuará pressionando as empresas brasileiras ao longo de 2027.

https://veja.abril.com.br/economia/juros-altos-dividas-e-inflacao-ameacam-caixa-das-empresas-brasileiras-ate-2027-diz-moodys/