
O mercado de duplicatas está, aos poucos, ganhando atenção do mercado, conforme o ecossistema de duplicatas escriturais planejado pelo Banco Central ganha corpo. Com a adesão obrigatória entrando e vigor em 2027, a expectativa de especialistas é que os títulos conquistem espaço como colateral (garantia de operações).
Em conversa sobre como o mercado está se preparando para esse novo cenário e quais oportunidades surgem para o setor durante evento na Arena B3 nesta terça-feira (17), especialistas citaram os desafios a serem enfrentados e as vantagens das duplicatas escriturais.
Na abertura do evento, Roberta Fortunato, superintendente de produtos da B3, lembrou o longo histórico da duplicata, que surgiu em 1958 e ganhou sua versão escritural apenas em 2024, e elencou as mudanças no decorrer da história.
Ao alterar a emissão da duplicata de versão cartular para escritural, o governo mudou as regras dos títulos e criou a figura do escriturador. “A duplicata precisa nascer, ser atualizada e liquidada no sistema do escriturador”, diz Roberta, acrescentando que a duplicata passa a ser única.
Com a escrituração, há uma visualização do fluxo completo da duplicata e a criação de um ambiente confiável para operações de crédito, o que auxilia na diminuição das taxas.
Em junho de 2025, a taxa média de juros de negociação das duplicatas era de 21,2% ao ano, acima da Selic, atualmente em 15%. Com o juro alto, a aversão a risco cresce, dificultando o crédito. As pequenas empresas, inclusive, são as mais afetadas, dificuldade a ser sanada com a nova norma.
O Banco Central estima um volume anual de emissão de notas fiscais de R$ 10 trilhões, potencial para o mercado de duplicatas, mas apenas 10% a 15% desse volume é usado para antecipação de crédito atrelado a duplicatas.
Entre as dificuldades para a adesão, o título duplicata ainda tem muitas fraudes atreladas, o que gera insegurança na hora do financiamento desse tipo de papel. Com o novo formato escritural, completamente digital e com a figura do escriturador, haverá mais segurança.
Os bancos, por exemplo, devido a essa ausência de validação jurídica de lastro das duplicatas hoje, têm trabalhado com a antecipação de recebíveis na modalidade de coobrigação. Isso significa que, se o sacador não pagar, o sacado precisa honrar.
Em função disso, a modelagem do crédito é muito vinculada ao sacador, não ao título em si, o que acaba limitando as empresas. Com o novo ecossistema, o foco passa a ser no título. Atualmente, o cronograma se encontra em fase de produção assistida.
Para a B3, a postergação do cronograma das duplicatas acabou afetando o engajamento das empresas, mas agora, finalmente, o produto deve ganhar tração.
“Agora começamos ver o movimento das empresas de dizer ‘agora estou vendo um início desse processo’. A obrigatoriedade é para as instituições financeiras negociarem títulos sob a forma escritural, não das empresas, mas consequentemente elas são impactadas”, diz Roberta.
Nos últimos quatro meses, a B3 tem trabalhado para se ajustar a esse mercado e evitar problemas como no caso dos recebíveis de cartões, em que houve um “big bang”, nas palavras da executiva.
“Quando falamos de duplicata, o Banco Central não tem poder de forçar as empresas a fazer nada. Pegando todas as adquirentes, falando de recebíveis de cartão, todos os clientes, bancos, emissores, com duzentas empresas já fecha um circuito”, diz Izaias Miguel, CEO da V360.
Miguel pontua ainda que, com a duplicata, há milhões de empresas escriturando e, do outro lado, milhões de empresas pagando. “É um negócio muito mais complexo de colocar de pé”, diz.
O cronograma do ecossistema de duplicatas escriturais é variável, a depender do atingimento de determinados critérios. Antes da adesão obrigatória, as empresas participam da produção assistida. A vantagem, para o CEO da V360, é se adequar antes do prazo para evitar problemas operacionais em escala.
“O grande porte é a primeira linha, depois, as médias a segunda e a terceira. Mas tem um equívoco dessa maneira, porque todas as empresas, de certa maneira, podem ser potenciais pagadoras de duplicatas. Desde o momento zero, ela precisa começar a pensar em se adaptar”, opina Ricardo Bonfim, gerente de produtos do Bradesco.
Na ponta de quem avalia o crédito, há desafios na linha de comunicação. Na análise do Bradesco, as empresas estão mais preocupadas com o regulatório, o que ofusca o tema de duplicatas escriturais.
Além disso, a resolução que regulamenta esse mercado promete aumentar a competição entre as instituições, o que exige uma revisitação de estruturas e processos.
Mas para os especialistas, abre-se uma janela importante de oportunidade tanto para as empresas como fornecedores, em programas de risco sacado, por exemplo, para alongar a fase de pagamento ou melhorar o fluxo de caixa.
“Estamos estudando com alguns clientes o crédito não performado para o fornecedor. Com a duplicata já é possível dar um crédito, provavelmente a empresa não vai querer correr esse risco, mas aquelas com fintechs internas, eventualmente seus feedings, vão querer dar crédito para a cadeia de fornecedores até vir um banco ou um fundo para financiar sua cadeia de fornecimento”, conta Miguel, da V360.
O executivo adiciona que é uma boa oportunidade para começar a fazer esse tipo de operação [duplicatas], porque diminui alguns riscos presentes hoje nos programas de risco sacado, como risco de fraude.
Hoje, em função de boa parte das operações serem via boleto, a política do produto está voltada ao sacador, o que dificulta o uso dessas operações como garantia de crédito. Se o sacador não tem crédito, não é possível classificar aquele ativo para fazer alguma antecipação ou usá-lo como garantia de operação de crédito.
“O que a resolução traz é uma revisitação desse modelo de crédito. Porque a duplicata, agora que tem lastro, permite criar uma política em cima do título em si. E nessa mudança, independentemente de qual o score do sacador ou não, conseguimos ampliar a oferta de crédito baseada na oferta, em cima do título”, diz Bonfim.
Na análise dos executivos, esse mercado vai abrir novos modelos de negócios, incluindo tokenização de duplicatas ou uso da duplicata como forma de moeda em negociações na cadeia de recebíveis, além da possibilidade de negociação de dados coletados com o serviço de escrituração.
https://capitalaberto.com.br/negocios/players-veem-duplicatas-escriturais-como-oportunidade-de-garantia-de-operacoes-e-novos-negocios/
Em conversa sobre como o mercado está se preparando para esse novo cenário e quais oportunidades surgem para o setor durante evento na Arena B3 nesta terça-feira (17), especialistas citaram os desafios a serem enfrentados e as vantagens das duplicatas escriturais.
Na abertura do evento, Roberta Fortunato, superintendente de produtos da B3, lembrou o longo histórico da duplicata, que surgiu em 1958 e ganhou sua versão escritural apenas em 2024, e elencou as mudanças no decorrer da história.
Ao alterar a emissão da duplicata de versão cartular para escritural, o governo mudou as regras dos títulos e criou a figura do escriturador. “A duplicata precisa nascer, ser atualizada e liquidada no sistema do escriturador”, diz Roberta, acrescentando que a duplicata passa a ser única.
Com a escrituração, há uma visualização do fluxo completo da duplicata e a criação de um ambiente confiável para operações de crédito, o que auxilia na diminuição das taxas.
Em junho de 2025, a taxa média de juros de negociação das duplicatas era de 21,2% ao ano, acima da Selic, atualmente em 15%. Com o juro alto, a aversão a risco cresce, dificultando o crédito. As pequenas empresas, inclusive, são as mais afetadas, dificuldade a ser sanada com a nova norma.
O Banco Central estima um volume anual de emissão de notas fiscais de R$ 10 trilhões, potencial para o mercado de duplicatas, mas apenas 10% a 15% desse volume é usado para antecipação de crédito atrelado a duplicatas.
Entre as dificuldades para a adesão, o título duplicata ainda tem muitas fraudes atreladas, o que gera insegurança na hora do financiamento desse tipo de papel. Com o novo formato escritural, completamente digital e com a figura do escriturador, haverá mais segurança.
Os bancos, por exemplo, devido a essa ausência de validação jurídica de lastro das duplicatas hoje, têm trabalhado com a antecipação de recebíveis na modalidade de coobrigação. Isso significa que, se o sacador não pagar, o sacado precisa honrar.
Em função disso, a modelagem do crédito é muito vinculada ao sacador, não ao título em si, o que acaba limitando as empresas. Com o novo ecossistema, o foco passa a ser no título. Atualmente, o cronograma se encontra em fase de produção assistida.
Para a B3, a postergação do cronograma das duplicatas acabou afetando o engajamento das empresas, mas agora, finalmente, o produto deve ganhar tração.
“Agora começamos ver o movimento das empresas de dizer ‘agora estou vendo um início desse processo’. A obrigatoriedade é para as instituições financeiras negociarem títulos sob a forma escritural, não das empresas, mas consequentemente elas são impactadas”, diz Roberta.
Nos últimos quatro meses, a B3 tem trabalhado para se ajustar a esse mercado e evitar problemas como no caso dos recebíveis de cartões, em que houve um “big bang”, nas palavras da executiva.
“Quando falamos de duplicata, o Banco Central não tem poder de forçar as empresas a fazer nada. Pegando todas as adquirentes, falando de recebíveis de cartão, todos os clientes, bancos, emissores, com duzentas empresas já fecha um circuito”, diz Izaias Miguel, CEO da V360.
Miguel pontua ainda que, com a duplicata, há milhões de empresas escriturando e, do outro lado, milhões de empresas pagando. “É um negócio muito mais complexo de colocar de pé”, diz.
O cronograma do ecossistema de duplicatas escriturais é variável, a depender do atingimento de determinados critérios. Antes da adesão obrigatória, as empresas participam da produção assistida. A vantagem, para o CEO da V360, é se adequar antes do prazo para evitar problemas operacionais em escala.
“O grande porte é a primeira linha, depois, as médias a segunda e a terceira. Mas tem um equívoco dessa maneira, porque todas as empresas, de certa maneira, podem ser potenciais pagadoras de duplicatas. Desde o momento zero, ela precisa começar a pensar em se adaptar”, opina Ricardo Bonfim, gerente de produtos do Bradesco.
Na ponta de quem avalia o crédito, há desafios na linha de comunicação. Na análise do Bradesco, as empresas estão mais preocupadas com o regulatório, o que ofusca o tema de duplicatas escriturais.
Além disso, a resolução que regulamenta esse mercado promete aumentar a competição entre as instituições, o que exige uma revisitação de estruturas e processos.
Mas para os especialistas, abre-se uma janela importante de oportunidade tanto para as empresas como fornecedores, em programas de risco sacado, por exemplo, para alongar a fase de pagamento ou melhorar o fluxo de caixa.
“Estamos estudando com alguns clientes o crédito não performado para o fornecedor. Com a duplicata já é possível dar um crédito, provavelmente a empresa não vai querer correr esse risco, mas aquelas com fintechs internas, eventualmente seus feedings, vão querer dar crédito para a cadeia de fornecedores até vir um banco ou um fundo para financiar sua cadeia de fornecimento”, conta Miguel, da V360.
O executivo adiciona que é uma boa oportunidade para começar a fazer esse tipo de operação [duplicatas], porque diminui alguns riscos presentes hoje nos programas de risco sacado, como risco de fraude.
Hoje, em função de boa parte das operações serem via boleto, a política do produto está voltada ao sacador, o que dificulta o uso dessas operações como garantia de crédito. Se o sacador não tem crédito, não é possível classificar aquele ativo para fazer alguma antecipação ou usá-lo como garantia de operação de crédito.
“O que a resolução traz é uma revisitação desse modelo de crédito. Porque a duplicata, agora que tem lastro, permite criar uma política em cima do título em si. E nessa mudança, independentemente de qual o score do sacador ou não, conseguimos ampliar a oferta de crédito baseada na oferta, em cima do título”, diz Bonfim.
Na análise dos executivos, esse mercado vai abrir novos modelos de negócios, incluindo tokenização de duplicatas ou uso da duplicata como forma de moeda em negociações na cadeia de recebíveis, além da possibilidade de negociação de dados coletados com o serviço de escrituração.
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