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Financiamento do agronegócio muda e pode impactar preços

O financiamento do agronegócio no Brasil está mudando — e essa transformação pode influenciar diretamente o custo da produção no campo, o ritmo de investimentos e, no médio prazo, até os preços dos alimentos.

A entrada mais forte de instrumentos de mercado de capitais, como os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e os Fiagro, começa a reduzir a dependência do crédito rural tradicional e dos bancos. Na prática, isso altera a forma como o dinheiro chega ao produtor e como o setor se financia.

Para especialistas, essa mudança pode tornar o acesso ao crédito mais amplo e eficiente. Ao mesmo tempo, indica uma reorganização mais profunda na estrutura financeira do agronegócio brasileiro.

Como muda o financiamento do agronegócio na prática

O avanço do financiamento do agronegócio via mercado de capitais já aparece nos números mais recentes.

O patrimônio líquido dos Fiagro saiu de cerca de R$ 10,5 bilhões em 2022 para R$ 43,7 bilhões no fim de 2024. Em março de 2025, o volume atingiu aproximadamente R$ 44,7 bilhões, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Além disso:
  • o número de fundos chegou a 145 veículos operacionais
  • o crescimento acumulado em dois anos supera 300%
Essa trajetória mostra que o Fiagro deixou de ser uma alternativa experimental e passou a ocupar espaço relevante no financiamento do setor.

Dinheiro novo entra no agro — sem passar pelo banco

A principal mudança no financiamento do agronegócio está na origem do dinheiro.

Antes, o setor dependia majoritariamente de:
  • crédito rural subsidiado
  • financiamento bancário tradicional
Agora, cresce a participação de investidores do mercado financeiro.

Funciona assim:
  • empresas do agro transformam receitas futuras (como vendas e exportações) em ativos financeiros
  • esses ativos são organizados em fundos
  • investidores aplicam recursos nesses fundos
  • o dinheiro chega mais rápido ao produtor
Isso reduz a intermediação bancária e cria novas rotas de financiamento.

“O que estamos vendo não é apenas a entrada de novos instrumentos, mas uma mudança na lógica de financiamento do agronegócio. O capital deixa de ser concentrado nos bancos e passa a circular de forma mais distribuída, conectando diretamente investidores às cadeias produtivas”, disse o economista Pedro Brandão ao Economic News Brasil.

FIDC e Fiagro: o que muda na prática

Dois instrumentos estão no centro dessa transformação:

FIDCs
  • antecipam recebíveis (como vendas futuras)
  • geram liquidez imediata para empresas
Fiagro
  • financiam terras, produção e operações do agro
  • conectam investidores diretamente ao setor
Um dado importante: cerca de 48% dos Fiagro já têm foco em crédito, com estrutura semelhante à dos FIDCs.

Isso mostra que o financiamento baseado em recebíveis — ou seja, em dinheiro que ainda será recebido — já domina parte relevante desse mercado.

Regra nova facilitou a expansão

O crescimento do financiamento do agronegócio via fundos não aconteceu por acaso.

Ele foi viabilizado por mudanças regulatórias:
  • CVM 175 (2022): modernizou as regras dos fundos de investimento
  • CVM 214 (2024): consolidou a regulamentação do Fiagro
Na prática, essas mudanças:
  • aumentaram a flexibilidade dos fundos
  • deram mais segurança jurídica
  • facilitaram a entrada de investidores
Isso abriu espaço para o agro acessar dinheiro fora do sistema bancário tradicional.
  • Regra do Fiagro é essencial para segurança e transparência no Agro, diz Pedro Brandão
  • Mercado de capitais para o agronegócio ganha força com apoio da CVM
  • Agronegócio sustentável: ciência e tecnologia na produção limpa
Um detalhe pouco conhecido: ICMS virou fonte de financiamento

Um dos pontos mais inovadores dessa nova fase envolve impostos.

Estados começaram a permitir que empresas usem créditos acumulados de ICMS — que muitas vezes ficam parados no balanço — como parte de investimentos em fundos.

Onde isso já acontece:

Goiás
  • Decreto nº 10.756/2025
  • permite usar créditos de ICMS para investir em FIDCs, Fiagro e FIPs
Paraná
  • Decreto nº 9.951/2025
  • autoriza uso de créditos para entrar em FIDCs do agro

Jackson Pereira Jr
Jackson Pereira Jr. é jornalista e empreendedor, fundador do Sistema BNTI de Comunicação e dos portais Economic News Brasil, Boa Notícia Brasil e J1 News Brasil.

https://economicnewsbrasil.com.br/2026/03/18/financiamento-do-agronegocio-muda-e-pode-impactar-precos/