
Uma reportagem exibida no último domingo pelo Fantástico, da TV Globo, revelou a dimensão nacional da chamada “Indústria Do Limpa Nome”, esquema que utiliza ações judiciais coletivas para ocultar registros de inadimplência de devedores sem que as dívidas sejam efetivamente quitadas. O presidente do SINFAC-SP e da ABRAFESC, Hamilton de Brito Junior, chama atenção para um aspecto: o risco de que a ampla divulgação do tema acabe produzindo efeitos contraditórios. Segundo ele, reportagens investigativas têm papel fundamental ao expor esquemas que comprometem a segurança do mercado de crédito e ao mobilizar órgãos de controle, Ministério Público, Judiciário e entidades representativas para enfrentar o problema.
Por outro lado, a exposição do assunto também pode funcionar como uma vitrine involuntária para empresas e associações que oferecem esse tipo de serviço. "Trata-se de uma faca de dois gumes. É extremamente importante que a sociedade conheça o problema e que as autoridades tenham elementos para combatê-lo. Mas, ao mesmo tempo, quando se mostra que existem mecanismos capazes de esconder restrições cadastrais, mesmo sem a quitação das dívidas, parte do público passa a enxergar isso como uma oportunidade e não como uma fraude ao sistema de crédito", avalia.
Hamilton observa que esse comportamento ficou evidente nas redes sociais após a exibição da reportagem. No perfil do Fantástico no Instagram, dezenas de comentários foram publicados por pessoas interessadas em aderir às ações judiciais de "limpa nome", enquanto empresas que oferecem esse tipo de serviço aproveitaram o espaço para divulgar suas atividades. Em um dos comentários, uma empresa chegou a agradecer ironicamente ao programa pela "publicidade gratuita".
"Esse tipo de reação mostra que o combate ao problema não depende apenas de fiscalização e investigação. É necessário também ampliar o trabalho de conscientização para que a população compreenda que essas ações não eliminam as dívidas, apenas ocultam temporariamente as informações de inadimplência, gerando prejuízos para todo o mercado e, em última análise, para os próprios consumidores", afirma.
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Acima, comentários no Instagram do Fantástico
Movimento ganhou escala nacional
A investigação mostrou que o fenômeno deixou de ser um problema localizado para se tornar um movimento de alcance nacional, envolvendo associações de defesa do consumidor, decisões liminares obtidas em diferentes estados e milhares de pessoas e empresas que conseguem retirar temporariamente as restrições de crédito de seus cadastros, mesmo permanecendo inadimplentes.
Segundo dados apresentados pelo jornalismo da Globo, atualmente cerca de 200 mil devedores estariam se beneficiando desse tipo de ação judicial. “Ao longo de 5 anos já se chegou a uma marca de aproximadamente R$ 130 bilhões em créditos que foram camuflados, pessoas que têm dívidas e que estão se apresentando diante do mercado com o nome limpo e com isso contraindo novas dívidas”, afirmou André Gomes Netto, presidente do Instituto de Estudos de Protesto de Títulos do Brasil (IPTB), durante a reportagem.
Outro dado que chama atenção é a expansão geográfica do esquema. As ações que em 2023 estavam concentradas principalmente em Piauí, Paraíba e Pernambuco passaram a atingir outros estados do país. “No começo achamos que era um movimento pontual, mas ele está se voltando quase que a um movimento sistêmico”, alertou o presidente da ANBC, Elias Sfeir. Ele também destacou o caráter organizado da prática: “Quando é derrubada uma liminar num estado, abre-se uma liminar em outro estado e cerca de 90% da lista original migrou de um estado para outro. Isso mostra um movimento orquestrado.”
Risco para o crédito e aumento dos custos para toda a sociedade
A reportagem mostrou que as liminares não extinguem as dívidas, apenas impedem temporariamente que elas apareçam em consultas realizadas por empresas, instituições financeiras e fornecedores. Na prática, isso cria uma falsa sensação de adimplência e pode levar empresas a conceder crédito para CPFs e CNPJs que já possuem histórico relevante de inadimplência.
O Fantástico apresentou o caso de um empresário do setor de energia solar que sofreu prejuízo de aproximadamente R$ 3 milhões após conceder crédito a um cliente que possuía registros ocultados por decisão judicial. Para André Gomes Netto, o impacto ultrapassa as perdas individuais. “A sociedade é que acaba pagando o preço desse calote em larga escala e com aparência de legalidade”, afirmou.
Atuação do SINFAC-SP e da ABRAFESC
O combate à chamada “Indústria do Limpa Nome” não é um tema novo para o setor de fomento comercial. O SINFAC-SP e a ABRAFESC acompanham o avanço dessas práticas há vários anos e vêm promovendo iniciativas de conscientização, orientação e debate junto a parlamentares e ao judiciário, confira aqui o histórico.
As entidades têm alertado que a ocultação artificial de registros de inadimplência compromete a segurança das operações de crédito, aumenta os riscos para empresas de factoring, securitizadoras, FIDCs e demais agentes financeiros, além de elevar o custo do crédito para toda a economia.
O tema já foi pauta de diversos eventos promovidos pelo SINFAC-SP e pela ABRAFESC. Entre os especialistas convidados para discutir o assunto estiveram justamente André Gomes Netto, presidente do IPTB, e Elias Sfeir, presidente da ANBC, que participaram de eventos das entidades apresentando dados e orientações para o mercado sobre a expansão dessas ações judiciais e seus impactos no ambiente de crédito.
As entidades seguem acompanhando as investigações conduzidas pelo Ministério Público, pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelos tribunais estaduais, reforçando a importância da transparência das informações cadastrais e da preservação dos mecanismos legítimos de análise de risco, fundamentais para o funcionamento saudável do mercado de crédito brasileiro.
Fonte: Reportagem “Esquema milionário que engana pessoas com promessas de limpar o nome”, exibida pelo Fantástico em 31 de maio de 2026.
https://www.sinfacsp.com.br/noticia/reportagem-do-fantastico-expoe-crescimento-da-industria-do-limpa-nome-e-reforca-alertas-ja-feitos-pelo-sinfac-sp-e-pela-abrafesc




